Entrevistas

Gestão de frotas eficiente salva vidas

Escrito por: Renato Mello

A Younder produziu, em parceria com o canal Mova-se, uma série de entrevistas em vídeo com especialistas de frotas para contar um pouco dos desafios do setor. Neste papo, convidamos Flavio Tavares, líder do Instituto PARAR e, também, está entre as mentes que transformaram a GolSat, empresa voltada a soluções de telemetria, em referência internacional.

Flavio acredita que a gestão de frotas eficiente salva vidas e que o bom gestor tem o compromisso de fazer tudo o que puder para assegurar que o motorista volte para sua família ao final do seu trabalho.

Veja o vídeo da entrevista com mais esse bate-papo enriquecedor sobre mobilidade e gestão de frota.

Se preferir, leia logo abaixo os principais tópicos dessa conversa. 😉

Gestão de frotas eficiente pelas vidas

“Sim, (gestão de frotas eficiente) salva vidas. Aliás, a gente no Instituto PARAR fala, já faz um bom tempo, que quem faz gestão de frotas, não faz gestão de frotas, faz gestão de vidas.

Os carros ainda não andam sozinhos. Há pessoas dirigindo esses carros, há famílias representadas através dessas pessoas. É muito interessante, quando você olha para a gestão de frotas, imaginar que estamos cuidando de famílias, porque tem um compromisso quando você faz uma boa gestão de frotas de levar aquele indivíduo, que dirige aquele carro, em segurança de volta para a sua família no final de um dia de trabalho.”

Fases da telemetria

“Eu acho que a telemetria teve algumas fases. A gente pode dividir em três momentos.

Primeira Fase

Teve o primeiro momento em que veio muito preocupada (como ainda é, em alguns aspectos), com o veículo. Tipo assim: se roubar, a gente tem que recuperar. Então tem muita seguradora, principalmente no mercado de caminhões, que cresceu muito.

Segunda Fase

Depois você vem para uma segunda fase, que aí a gente fala que não é mais rastreamento, a gente começa a usar esse termo, a telemetria, como se houvesse muita diferença. Na terminologia não muda muito, mas, conceitualmente, quando se fala em rastreamento, se remete um pouco à recuperação do carro, e quando você fala em telemetria, você está falando do “driver behavior”, que é do comportamento do motorista, é da preocupação com o modo como ele dirige.

Nesse aspecto do comportamento, da telemetria focada em melhorar o comportamento do motorista, eu acho que é um divisor de águas porque é impossível você gerir aquilo que você não mede. E a telemetria mede, mostra dados e indicadores. 

Terceira fase

Agora a gente tem um terceiro nível da telemetria que é a telemetria por imagem.

Porque quando você pega a telemetria do “driver behavior”, que é do comportamento, ela na verdade vai te falar: olha, você fez uma frenagem brusca, mas você não sabe o motivo.

Será que foi um cachorro que passou em frente, ou será que ele estava distraído com o celular? Tem uma série de variáveis e, historicamente, você acabava punindo esse colaborador por esse comportamento.

Agora, com a imagem, você tem o movimento do carro, o comportamento do motorista e a imagem daquele fato. E essa telemetria, já nos Estados Unidos, está crescendo muito e no Brasil também está começando a ter uma nova perspectiva sobre a telemetria por imagem.”

Gestão de frotas ou gestão de vidas?

“Quando a gente pensa em gestão de frotas, seria ótimo que todo mundo pensasse na gestão de vidas, mas ainda não é assim. A maioria dos fornecedores está muito mais preocupada com os produtos e serviços do que com as pessoas, por incrível que pareça.

Então a gente espera que esse movimento cresça ainda mais. O gestor de frotas é uma figura das mais necessárias, das mais importantes dentro desse processo.

Missão dos gestores de frota

Quando ele internaliza o conceito de que ele não cuida de carro, e que ele está cuidando de vidas, e ele assume esse compromisso, ele vai começar a provocar os fornecedores que atuam ali. Sejam locadoras, seja combustível, seja manutenção, seja telemetria, seja qual for o fornecedor.

Ele (o gestor de frota) vai demandar esses fornecedores para que eles desenvolvam soluções que possam ser aplicadas com o objetivo de levar essas pessoas com segurança para casa. 

Porque levar com segurança para casa, cuidar do condutor, parece que é um discurso muito romântico, mas não é. É um discurso econômico também. Todas as vezes que o motorista dirige melhor, que ele dirige dentro da velocidade da via, que ele não se envolve em acidentes, que ele não gera multa, o impacto econômico que isso tem para uma companhia é muito grande.

Gestão de vidas é sustentável e econômico

Então, eu sempre digo que se a empresa não quer ir pelo viés sustentável, do ponto de vista social, que é cuidar do colaborador, então que olhe pelo viés econômico, porque os dois são de alto impacto quando você faz uma boa gestão da frota. 

E a gente criou o Instituto PARAR em 2011 justamente para tirar o gestão de frota dessa marginal, porque geralmente colocavam um assistente qualquer e diziam: você vai cuidar da gestão de frota hoje.

Nós criamos o primeiro curso de gestão de frota da América Latina, é o Programa de Formação de Gestores de Frotas, que hoje é uma pós-graduação. Já faz três anos que é uma pós-graduação. A gente coloca entre 500 e 600 alunos todos os anos, fazendo esse curso.

Então, a gente investiu muito para colocar o gestor de frota num papel relevante diante das suas empresas, diante daquilo que ele estava se propondo fazer.”

Leia também: O que faz um gestor de frotas?, entrevista com Raphael Muller da Zoetis.

Identificar as carências do condutor e do gestor

“Começa com um bom diagnóstico, fazer uma boa leitura da empresa. Hoje existe um problema que a gente não tem muitos paralelos. Esses dias eu estava numa empresa em que haviam falecido dois colaboradores dirigindo veículos da empresa. Eles não sabiam se isso era um número alto ou baixo, porque não tinham muita base comparativa.

É óbvio que se você perder qualquer colaborador, sempre vai ser o extremo, porque uma empresa tem que trabalhar para preservar a vida dos seus colaboradores. Mas ainda não tem muito paralelo, Então uma empresa diz: tive trinta sinistros e tenho 200 carros. Isso é um bom número ou um número ruim?

Comece pelo básico

Quando você faz um bom diagnóstico, que é para saber aonde você vai, você precisa saber de onde você está partindo. Então fazendo uma boa leitura de número de multas, de comportamento de seus motoristas, de índices de sinistralidade, consumo de combustível, produtividade da equipe…Se você fizer uma boa análise, pelo menos você sabe de onde você está partindo e aí você começa buscar essas metas.

Aí você estabelece os seus KPIs, as metas que quer atingir baseado num bom diagnóstico. Esse é um problema: muita gente quer fazer gestão de frota sem fazer um bom diagnóstico.

Então, se você não sabe de onde você está partindo, não adianta você traçar uma meta de para onde você vai, porque você não está partindo de lugar nenhum. Então é muito bom você fazer um bom diagnóstico para poder fazer uma boa leitura do que, de fato, precisa ser construído na gestão de frota.”

Leia também: Relatório de ranking de motoristas: sua importância na redução de custos da frota!

Gestão de frota, mobilidade e sustentabilidade

“É uma pergunta interessante porque eu comecei no Instituto PARAR. discutindo gestão de frota e depois a gente criou o Welcome Tomorrow, um projeto que discute mobilidade da forma mais ampla possível. Primeiro nós falamos de gestores de frota, depois a gente falou sobre ser gestor de vida, então a gente diz: você é gestor de vida então você está preocupado com o movimento, com a mobilidade da sua empresa.

Mobilidade corporativa é um salto da gestão de frota

Acho que a mobilidade corporativa é um salto da gestão de frota. Quando ele consegue fazer um bom diagnóstico, estabelecer bons KPIs e trazer bons resultados nos veículos, ele começa a perguntar:

  • Será que eu preciso dos veículos?
  • Será que é o carro que vai atender essa demanda?
  • Será que não têm outros tipos de soluções?

Então ele começa a fazer uma reflexão mais profunda para entender se, de fato, o foco na frota é tão necessário. Mas para ele chegar nesse nível, precisa cumprir alguns protocolos.

Não adianta ele querer discutir esse nível se ainda não fez uma boa gestão de frota, se não teve ainda um olhar para a gestão de vida, que é essa gestão mais comportamental, mais focada no indivíduo.

Tenho muitos “cases” de empresas que já estão nesse terceiro nível. Que já começaram fazer compartilhamento de carros, implantar bicicletas elétricas e patinetes, desenvolver soluções que vão além da discussão tão raiz da gestão de frota.

Então eu acho que a mobilidade está muito ligada, porque tudo é movimento. As empresas, seja o “core” ou não, precisam se movimentar. Eu acredito muito que a figura do gestor de frota no Brasil vai chegar em algum momento – como já é nos EUA e no Canadá – a ser o cara da cadeira da mobilidade.

E é bacana isso porque o alvo a ser perseguido pelo gestor de frota, em minha opinião, é conseguir ser o mais amplo possível nessa discussão da mobilidade corporativa.

Conclusão

“A sustentabilidade está intrinsecamente ligada com toda essa discussão. Tem muitas empresas testando carros elétricos. Eu acho que quando você faz essa otimização de frota, você reduz a emissão de CO2 porque os carros rodam menos. Enfim, a sustentabilidade é um viés que está sempre presente em toda essa discussão.”

VEJA TAMBÉM: “Desafios na Gestão de Frota” – Entrevista com Victor Coelho, especialista de frota da JLL.